Antídoto à ressaca virtual: a pílula diária do conhecimento

Como se curar do mal do século da superficialidade onipresente na internet


     Caros alunos,

este artigo que compartilho com vocês foi publicado recentemente em Veja. O tema é muito interessante, vivemos um momento de ressaca virtual, com excesso de exposição à internet. Vejam como o autor procura remediar o mal, e prestem atenção às partes grifadas e destacadas por mim, estendendo o modelo da meia hora diária ao melhor aproveitamento do nosso curso. É a “pílula do conhecimento” de que tanto falo com vocês a cada aula, que lhes permite mergulhar no universo da linguagem e otimizar ao máximo sua preparação para as provas dos futuros concursos que farão, além de auxiliá-los a desenvolverem técnica e apuro em suas formas de comunicação, leitura, redação e entendimento geral de textos.

     Claro que podemos usufruir dos benefícios que a rede nos oferece, como bem estamos fazendo neste momento, ao explorar os recursos do nosso site. Mas o meu propósito maior é que vocês vão além simplesmente de acessar os materiais extras, que despertem cada vez mais para a leitura, que explorem outros materiais de outros educadores, tanto de língua portuguesa quanto de outras disciplinas. A pílula do conhecimento (meia hora diária de estudo) é apenas a isca para fisgá-los para dentro do barco que os levará rumo à terra nova da conquista e do sucesso!

     Ao término da leitura e contemplação das ideias, deixe um comentário no blog, para que possamos interagir e deixar fluir a energia do conhecimento no site.

     Bom fim de semana a todos e saboreiem sua dose diária de português.


Antídoto à ressaca virtual

A cura do cibervício está em uma invenção ancestral: o livro

Por José Francisco Botelho

    

      Sócrates não gostava de livros. Ao menos, é o que sugere certa passagem em Fedro, de Platão. Para demonstrar que o diálogo pessoal é superior à leitura, Sócrates conta a seguinte parábola sobre a invenção da escrita: o deus egípcio Tot foi o criador das artes e ciências; terminado o rol de inovações, mostrou-­as a Amon, divindade rabugenta e previdente; Amon aprovou a álgebra, a geometria e o jogo de xadrez, mas franziu o cenho ao ver o alfabeto (ou, no caso, os hieróglifos). “Essa invenção vai introduzir o esquecimento no espírito de todos que a aprenderem”, previu. “Os homens deixarão de exercitar a memória, pois colocarão toda a sua fé em signos externos.”

     O discurso antilivresco de Sócrates é dos primeiros exemplos do que mais tarde seria chamado ludismo — a ideia de que o avanço tecnológico acabará nos conduzindo a uma catástrofe generalizada. É estranho, e revelador, que a condenação socrática tenha chegado até nós por meio de um livro: ocorre que as ondas tecnofóbicas costumam se propagar exatamente nos meios que condenam.

     Mas vale notar também que, num ponto, Sócrates — ou Amon — estava certo: a introdução da escrita alterou a forma como o cérebro humano funciona. Os milhares de versos da Ilíada e da Odisseia foram criados oralmente e guardados na lembrança; mas eu não conseguiria compor metade deste parágrafo sem fazer duas ou três notas. Depois de assimilarmos a invenção de Tot, nossa memória jamais foi a mesma.

     Toda inovação técnica implica acréscimos mas também subtrações à experiência humana. Os ganhos da revolução digital são inegáveis — mas ela também implicou perdas e síndromes que já configuram uma ressaca virtual globalizada. O cérebro humano está mudando de novo, e nem sempre para melhor: a chuva meteórica de informações fragmentárias prejudicou nossa capacidade para a contemplação e o raciocínio li­near; o imediatismo das redes nos condiciona a reagir de forma superficial e raivosa à complexidade do mundo; o ethos da exposição constante faz com que o íntimo se amolde ao coletivo, e o resultado é um sectarismo aluci­nado, intrometido e onipresente.

     Não me entendam mal; não sou um ludista nem pretendo deletar minhas contas nas redes sociais. Mas toda ressaca precisa de um antídoto. O remédio que encontrei contra os excessos da nova reprogramação cerebral foi recorrer à velhíssima invenção de Tot: curei os achaques do cibervício retornando, com voracidade dupla, à leitura de imersão. Para que funcione, essa terapia deve ocorrer em doses diárias e envolver obras que nada tenham a ver com temas urgentes ou profissionais; quanto mais aparentemente inúteis, melhor. Alegar falta de tempo é autoengano: meia hora de leitura concentrada todos os dias é o suficiente para salvar nossa alma — ou aquelas partes de nosso antigo cérebro que não deveriam cair na lixeira da evolução.

     Claro, todo remédio tem seu efeito colateral: li tanto, nos últimos meses, que perdi temporariamente a disposição para conversar cara a cara. Não sei o que Sócrates diria a respeito.